Nunca um rei Momo passou por tantas dificuldades no Carnaval de Salvador. O guitarrista e ex-novo baiano, Pepeu Gomes tocou em um trio elétrico de baixa qualidade, acabou por desfilar na avenida com muitas horas de atraso e, para piorar, ainda teve discussão entre sua equipe e a dos produtores que acompanhavam a rainha do Carnaval. Esta semana, depois de retornar ao Rio de Janeiro, o rei contou, por e-mail, como foi triste ver os Novos Baianos “agonizando na avenida” e critica os organizadores da festa por não oferecerem estrutura adequada aos artistas que considera “patrimônio da Bahia e do Brasil”. Para o pós-Carnaval, prepara-se para engatar uma série de projetos em comemoração aos seus 40 anos de carreira e reconhece: “A música da Bahia melhora todo ano, mas os textos continuam pobres”. Pepeu Gomes (Pedro Anibal de Oliveira Gomes), nasceu em Salvador, no dia 7 de fevereiro de 1952. Aprendeu a tocar guitarra, ainda criança, aos 11 anos. Aos 14, formou a banda Los Gatos. A revista americana Guitar World o colocou entre os dez melhores guitarristas do mundo e da América Latina. Na década de 70, com Moraes Moreira, Paulinho Boca de Cantor, Galvão e Baby Consuelo participou da banda Novos Baianos. Em 1978, com o fim dos Novos Baianos, deu início à carreira solo.
Pepeu, que balanço você faz do seu reinado na folia de Momo?
- Foi muito bom participar como rei Momo e poder fazer algumas apresentações no Carnaval de Salvador.
Seu trio apresentou problemas técnicos e, no sábado de Carnaval, você só pôde desfilar às 4h da madrugada, quando o horário previsto era às 20 horas. Afinal, que estrutura de trio elétrico foi dada a você? O que faltava nos veículos para que você fizesse um desfile adequado?
- Olha, foi muito complicada a minha saída. Recebi um trio totalmente sem condições de me apresentar. Prometeram-me um trio com bom som e todo plotado para o rei Momo, e isso não aconteceu. Meu técnico foi às 10 horas da manhã para montar o nosso equipamento no trio e o que ele encontrou foi um trio sem nenhuma condição técnica e prática para a gente tocar. A mesa de som era da década de 80 e os agudos estavam desligados. Além disso, não tinha potência alguma em termos de volume e, com isso, fiquei muito prejudicado. Sem falar na falta de higiene do trio! Pedi que alugassem pelo menos uma mesa digital para melhorar o som, mesa que só chegou à meia-noite de quinta-feira. Aí ficou impossível de sair às 8 horas como combinado. Acho que deveriam ter me dado um trio melhor, por respeito a minha carreira e pelo que já fiz e faço pelo Carnaval de Salvador.
A rainha do Carnaval chegou a dizer que houve falta de respeito com ela depois de não ter tido autorização para subir no seu trio elétrico. O que, de fato, aconteceu naquele dia?
- O que aconteceu foi o seguinte: o produtor da rainha do Carnaval (não sei o nome dele) chegou ao trio na Barra falando muito agressivo e sem educação nenhuma, pedindo para colocar a rainha em cima do trio. Pedi aos meus produtores que explicassem para ele que onde ele queria colocá-las não tinha condição nenhuma, era na parte da frente do trio.Pois, tecnicamente, tínhamos várias pedaleiras no chão e um monte de cabos, inclusive tomadas ligadas sem proteção nenhuma, passando pelo caminho do trio, pois tivemos que ligar a mesa digital na parte da frente.
Diante disso, qual foi a proposta feita para a produção da rainha do Carnaval?
- Oferecemos para a rainha o palco de trás, que era a área destinada para os convidados, pois, na frente, eu mal me cabia para fazer o meu trabalho. Então, o produtor da rainha levou para outro lado, dizendo que ela tinha que ficar na frente de qualquer maneira. Quero que fique bem claro que, em nenhum momento, barramos a rainha e as princesas do Carnaval, no trio. Foi sim o critério técnico e logístico que tivemos de acatar ter condições de nos apresentar.
Eu soube que, durante o Carnaval, você fez uma apresentação no Carnaval de Juazeiro e que foi muito mais organizado que o de Salvador. Que estrutura foi oferecida a você por lá?
- Pois é. Realmente fomos a Petrolina nos apresentar e foi maravilhoso. Tudo funcionou como eu gostaria que tivesse acontecido em Salvador…

Novos Baianos reunidos na folia deste ano
Você já pensa no próximo Carnaval? O que espera da próxima folia?
- Não estou pensando em Carnaval agora. Este ano completo 40 anos de carreira e tenho vários projetos programados. Será lançada pela Warner toda minha discografia em vários boxes, sairá o meu primeiro trabalho gravado nos EUA, em inglês e espanhol, e gravarei um CD e um DVD fazendo a leitura do trabalho dos Novos Baianos na minha visão Rock´n Roll.
Apesar de todos os problemas, qual foi o lado bom de ter sido rei Momo? - Apesar de todos os problemas, foi muito bom ser rei Momo. Acho a ideia do rei Momo ser uma pessoa pública e formadora de opinião, bem mais interessante do que se fosse uma pessoa não conhecida. A rainha também deveria ser uma pessoa com postura socialpolítica e formadora de opinião.
O que você achou de mais uma participação dos Novos Baianos da folia?
- Os anos anteriores já não foram favoráveis. Este ano, os Novos Baianos passaram por problemas técnicos e logístico com relação ao trio que nos foi designado, que foi o mesmo trio do rei Momo “O Chapadão”! Acho que os organizadores deveriam tomar um pouquinho mais de cuidado com isso, pois somos um patrimônio da Bahia e do Brasil e merecemos cachês e tratamento melhores, como também espaço na mídia.

Pepeu recebeu a chave da cidade e desfilou na fubica
Você está ressentido com o tratamento dado aos Novos Baianos?
- Somos três artistas cantando e tocando ao mesmo tempo, e, não se esqueça, que temos uma parcela bem grande nesta festa que hoje existe porque fizemos uma grande revolução sonora no Carnaval de Salvador. Como membro dos Novos Baianos, fiquei muito triste ao ver o grupo agonizando na avenida, tentando fazer uma boa apresentação em cima de um trio de péssima qualidade.
O que você achou da qualidade musical da festa? Hoje, pagodes como Rebolation e Lobo Mau conseguem mais inserção popular que muitas músicas da axé music…
- Acho que o Carnaval da Bahia é isso mesmo. A música melhora todo ano, mas os textos continuam pobres….o que importa é a festa. Tento, nas minhas apresentações, tocar outro tipo de música para incentivar que esta parte da cultura seja mais valorizada. E é isso aí, cada um no seu quadrado… (risos) ” vou mostrando como sou, e vou sendo como posso, jogando meu corpo no mundo, andando por todos os cantos…… “
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